Foto: Vinicius Becker
Paulo Roberto Moraes é um dos catadores mais antigos de Santa Maria. Desde 1974, ele percorre as ruas da cidade em busca de material reciclável para sobreviver. A trajetória, marcada pelo trabalho precoce e resistência, segue até hoje, aos 59 anos. A história dele inspirou o filme Sangue da Terra, dirigido por Fabiano Foggiato, que estreia na terça-feira (7), no auditório da Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (Cesma), dentro da programação do Cineclube Lanterninha Aurélio.
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Catador desde os 7 anos, Moraes faz da reciclagem fonte de sustento da família. Ao longo de mais de cinco décadas, pela falta de oportunidades, o trabalho nas ruas deixou de ser uma alternativa e se tornou a base da renda que mantém sua casa na Travessa Domingos de Almeida, no Bairro Divina Providência, onde vive atualmente com a esposa e o filho.
— Foi a única coisa que eu podia fazer. Eu sigo até hoje, e vou seguir até quando puder trabalhar - afirma.
Ele diz que sobrevive com o básico e que a profissão é marcada pela invisibilidade e pela falta de valorização.
— Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas sem ele agente se torna invisível — completa.
"Vou começar a juntar"

A entrada de Moraes na reciclagem foi uma necessidade. Filho de um taxista e de uma mãe que cuidava de sete filhos, cresceu em uma casa na zona norte de Santa Maria, onde o trabalho era constante, mas não suficiente para garantir o básico.
Quando criança, deixou de frequentar as aulas ainda nos primeiros anos. A exigência de uniforme e materiais, que a família não tinha como custear, acabou o afastando da escola.
— Começaram a pedir uniforme, livro, e eu não tinha. Aí não fui mais para o colégio. Comecei a me esconder no mato - justifica.
Foi nesse contexto que surgiu o primeiro contato com a reciclagem. Ao observar um vizinho que comprava ossos, vidro e ferro, decidiu começar por conta própria, ainda sem que a família soubesse.
— Eu vi aquilo e pensei: "vou começar a juntar". Combinei com ele (vizinho) de passar lá em casa e comecei, pequeno ainda, me escondendo, indo para os matos, descendo o Arroio Cadena - conta.
Quando sua mãe descobriu, não o impediu. Diante da situação da casa, entendeu que aquilo ajudava. A renda da venda do material recolhido, ainda na época do cruzeiro, passou a complementar o sustento da família.
— Quando minha mãe descobriu, ela viu que a pobreza era muito grande e que o que eu estava fazendo ajudava em casa. O que eu e meus irmãos comíamos? Farinha de polenta torrada, um pouco de açúcar e frutas verdes nos pátios. De madrugada, quando meu irmão mais novo chorava e não tinha gás, eu pegava os maços de jornal e tacava fogo para ir amornar o leite - recorda
Moraes diz que sonhou em ser cantor, jogador de futebol. Imaginou caminhos diferentes dos que seguiu. Mas, assim como na escola, as limitações financeiras também impediram que esses desejos avançassem.
— Eu era louco para jogar bola. Chegava lá, todo mundo com chuteira, e eu não tinha. Aí escolhiam um, escolhiam outro, e quando chegava em mim, diziam que não dava para eu jogar — lembra, com tristeza.
Hoje, ao relembrar a própria trajetória, o catador afirma que busca oferecer ao filho oportunidades que não teve.
O filho conseguiu concluir os ensinos Fundamental e Médio e, atualmente, está no Exército. Segundo Moraes, o jovem ajuda no trabalho sempre que pode, mas não deve seguir na reciclagem.
"Achei que tivesse algum tipo de direito adquirido"

Paulo Roberto Moraes vive nas ruas diariamente. A rotina é marcada por jornadas extensas, com quilômetros pedalados em sua bicicleta, que começam por volta das 8h e, muitas vezes, não têm hora para terminar. A renda é instável. Depende do material encontrado ao longo do dia.
Os mais de 50 anos de trabalho nas ruas, que também incluíram períodos no transporte de cargas, cobram seu preço. Ele já passou por duas cirurgias de hérnia e tem 60% dos tendões do braço direito rompidos.
— Eu estou com 59 anos e me acho um bagaço. Um bagaço. Por quê? Pelo sol, pelo sofrimento, pelo frio. Faça chuva, faça sol, eu estou na rua — relata.
Apesar da longa trajetória, Moraes afirma que nunca se sentiu valorizado. Para ele, o tempo de trabalho não se traduziu em reconhecimento ou melhores condições de vida.
— Eu sempre fui trabalhador, trabalho até hoje. Não é que eu queira benefício ou mordomia, mas achei que, depois de tantos anos, podia ter algum tipo de direito adquirido. Posso estar falando bobagem, mas trabalho desde pequeno — diz.
Além da falta de dinheiro, o trabalho também é atravessado por riscos. Segundo ele, a disputa por materiais recicláveis e a falta de organização tornam a rotina nas ruas ainda mais difícil:
— A rua é um campo de guerra. Só quem trabalha nela sabe o que é.
Moraes enfrenta situações de ameaça e violência durante o serviço, principalmente em horários mais isolados. Segundo ele, episódios como esses fizeram com que deixasse de trabalhar durante a madrugada.
— Uma vez, era por volta das 4h30min, dois homens me cercaram e puxaram faca. Eu estava sozinho. Tentei conversar e consegui sair, mas a situação ficou difícil. A gente fica pensando: podia ter levado uma facada — conta.
"Eu não corto uma árvore, não destruo"

Mesmo em meio à rotina pesada, Moraes mantém uma relação com a preservação do meio ambiente. Além dos materiais recicláveis, costuma recolher animais abandonados e plantas descartadas.
A casa onde vive é repleta de cães que eram de rua e de plantas resgatadas de contêineres. Na humilde residência da Travessa Domingos de Almeida, os animais e as plantas ganham a chance de uma nova vida.
Um detalhe da casa do catador chama atenção: o muro da frente contorna a raiz de uma árvore grande, preservada no local.
— Eu não corto uma árvore, não destruo — garante.
"A reciclagem me salvou, mas é sofrido demais"

Moraes reconhece a importância da reciclagem na própria trajetória, mas não romantiza o trabalho. Define como uma vida dura, marcada por esforço constante, especialmente para quem veio de uma realidade com poucas condições financeiras.
— A reciclagem me salvou, mas é sofrido demais. É uma vida para quem está lá embaixo, como eu vim – conta.
Em meio à rotina, muitas vezes deixa de se alimentar para garantir o sustento da família:
— A gente esquece da própria fome para trabalhar e levar comida para casa.
Apesar das dificuldades, também faz questão de destacar gestos de solidariedade que encontra no dia a dia e que fazem diferença na rotina.
— Tem gente que para e dá um bom dia, oferece uma água, pergunta se a gente já comeu. Às vezes, param e dão uma marmita. Isso ajuda muito — conta.
Esses momentos são sinal de cuidado e empatia.
— Isso, sim, é cuidar das pessoas. Parece que Deus manda anjos para ajudar a gente que está na rua — finaliza.
*Colaborou Alexandre Labella